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Algumas palavras sobre as eleições

2.9.14
O bom observador percebe, e estas eleições têm deixado muito evidente, o fato de que o brasileiro não vota com a razão, mas com a emoção. O despontar súbito de uma candidata que, em poucos dias, assume a primeira posição nas pesquisas, sendo colocada como uma "terceira via" dentro da disputa à presidência, praticante de uma suposta "nova política" é uma boa demonstração disto. 
Infelizmente, o que o brasileiro deseja não é somente um presidente, mas sim um "messias". Um ex-presidente (vários, na verdade) carregou consigo (e, para muitos, ainda carrega) uma imagem parecida com a de um "grande líder", uma espécie de messianismo, e conquistou muitos corações, por duas vezes, na última década.
Falta-nos o desejo de aprender. E como, desde cedo, o cidadão brasileiro aprende passivamente que, acima de um pai ou uma mãe, ele deve ter um estado que lhe dê sustento e apoio em tudo, ou quase tudo, não é para menos que este mesmo cidadão dirija-se sempre às urnas encantado pelo discurso que, teoricamente, mais lhe promete, mais demonstre que o estado o servirá, e que ele não precisará fazer muita coisa, apenas se deixar ser sustentado por este grande e bondoso pai, na pessoa de seu "grande líder", de seu "messias da última hora".
É triste ver que muitos, senão a maior parte da população, acredita que somente mudando-se as peças do jogo político, as coisas andarão, o país subitamente mudará da água para o vinho, e todos viveremos "novos dias", ou de repente "um sonho", ou qualquer outra espécie de chavão eleitoral.
A mudança, o brasileiro sempre a espera, e sempre a deseja, mas não de si mesmo. Não desejamos mudar a nós mesmos, mas sim que o outro, este famigerado outro, mude. Que o outro deixe de ser corrupto, ladrão, mesquinho, etc. Não sabemos, não conseguimos enxergar a nossa corrupção diária, nossos deslizes já costumeiros, não desejamos corrigir nosso "jeitinho brasileiro", pelo contrário, nos orgulhamos dele, dando-lhe status de patrimônio cultural.
Para não mudar a si próprio, o brasileiro continua acreditando poder mudar toda a situação de pobreza, seja a monetária, seja a moral, ou a intelectual, apenas por meio do voto. O cidadão destas terras ainda crê, e vejo que assim será por muito tempo, que as coisas mais elementares da vida comum podem ser mudadas da noite para o dia por meio das "canetadas" daqueles que exercem o poder (e muitas tentativas neste sentido têm sido feitas por nossos governantes...)
Eis a verdadeira pobreza. Um povo que até quando se une para protestar contra "tudo o que está aí", exige que as mudanças seja feitas começando-se de cima. Nenhuma casa é construída de cima para baixo; não dá pra se colocar o telhado numa casa que não possua paredes e alicerce. Protestar contra "tudo o que está aí" é a demonstração clara de que o povo não sabe definir contra o que protesta, contra o que está lutando, ou a favor de quê. Ergue seus cartazes, e simplesmente joga pra fora sua insatisfação, acusando a tudo e a todos (quando não quebrando...), sem pensar em protestar contra si próprio. 
Desembocando nas eleições, o protesto tornou-se o voto contrário ao governo atual (que também se diz "messiânico", ou pior, "criador de um novo país"), e o brilho de esperança nos olhos de qualquer candidato cujo discurso apresente como que sonhos e visões de um futuro melhor, vislumbres de algo novo, mas que em nada difere do velho, do atual, arrebata as multidões ávidas pelas mudanças, mas que são incapazes de mudar a si próprias, que na verdade sequer desejam isto.
"Messias" há muitos, e eles reaparecem, em maior ou menor grau, em todo período eleitoral. E o cidadão brasileiro sempre adora ser levado de arrasto pelos inflamados discursos, pelas belas palavras desprovidas de sentido, camuflagens da realidade. Mas o messianismo começa a terminar justamente quando vira o calendário, quando a faixa presidencial é passada, quando o "messias" assume o posto presidencial. Aí começará, quase que instantaneamente, a busca por um "novo messias". Aí começará, ou melhor, continuará a dura realidade de um povo que prefere viver dias de sonhos e visões a uma vida de trabalho, conscientização e entendimento e, acima de tudo, reeducação.

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