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Pensamentos sobre a civilização

23.6.14
É fato que a derrocada da civilização judaico-cristã, o famoso "Ocidente", tem trazido após si um vácuo monstruoso, que só não é maior que as barbaridades que têm sido usadas como tentativa de preenchimento deste próprio vácuo, começando pela relativização e personalização da verdade (ou, neste caso, verdades), ou mesmo a criação de pseudo-verdades, passando pelo descrédito para com as coisas sagradas, que resultou, ironicamente, em tentativas, ou de se "dessacralizar" tudo, ou de jogar quase tudo num pacote de "sacralização"; chegando em dias como os nossos, onde a mentalidade das pessoas tem cada vez mais se tornado irreverente em relação não apenas às coisas sacras, mas mesmo aos valores universais como o amor, a bondade, a justiça, a misericórdia etc.
Vindo no embalo deste vácuo, o ser humano, cujo coração não se contenta com o que é passageiro, vai buscando algo para se eternizar, parafraseando Unamuno, e não consegue se desprender da ideia de algum tipo de justiça superior, ou mesmo dos valores universais, ainda que tendam a relativizá-los fortemente na teoria, ainda que muito pouco na prática. Afinal de contas, numa situação de forte confrontação, poucos valorizariam a verdade de quem lhes confronta, ainda mais se esta lhes parecer algo que foge da lógica, ou do entendimento comum.
Voltando à degradação da sociedade, vejo que o ser humano precisa, ainda que não entenda como, de algum tipo de autoridade, mesmo que imprecisa e vaga, sobre si. Na verdade, vejo isso como o anseio perdido da busca pela direção divina, perdida lá no Éden, quando Adão acreditou que poderia decidir tudo por si mesmo, e sentiu o poder de Deus em sua vida, não como um poder de criação, mas como um poder de julgamento, o peso do pecado, a morte.
Dentro desta necessidade de direção, o homem caído tem acreditado, ao longo dos séculos de sua existência, que pode alcançar algum tipo de unidade de propósito, desde local até mundialmente falando. Vide, como exemplo, os esforços feitos em Babel, e o constante debate sobre formas de governo, que vem desde os antigos. Ou mesmo os "ismos", amplamente inspirados pela mentalidade revolucionária, que existem no mundo contemporâneo.
Chegando aos nossos tempos, o "homem ocidental" tem enfrentado problemas, alguns dos quais aumentados, outros reais, outros simplesmente inventados, e tem sofrido um tipo de influência permanente no sentido de fazer parte de algo maior, no sentido de deixar de valorizar o ser um indivíduo (uma espécie de diluição da individualidade, coisa que começa lá na escola), valorizando mais o ser parte em uma sociedade, paradoxalmente cada vez mais pluralista e menos tolerante, que em sua mente vai, aos poucos, sendo formatado um padrão de possibilidade da criação de um "mundo melhor", um slogan com forte apelo emocional, afinal de contas, quem lutaria por um "mundo pior"?
O grande problema é que diante de uma vontade caída e apartada do conselho divino, e com um forte senso de "pertencimento"a algo maior, que de fato deveria ser Deus, o homem vai se entregando a uma espécie de ente social vago e gigantesco, se tornando parte de uma forma de vida que cada vez mais se expande, e cujo anseio sempre será no sentido de sua própria ampliação. Alguns diriam aqui que estou falando do Estado, mais vejo algo pior, maior e pior. Muito mais que um Estado, vejo isto como a disposição total do espírito humano no sentido de se tornar absoluto. Talvez, na linha do "imperativo categórico", do poder real, total e invisível do Estado, parafraseando Gramsci. Mas não vejo isto como algo restrito a nações. Vejo como uma disposição da mentalidade ocidental, mas do ocidente pós-moderno, o ocidente que valoriza a "diferença", a pseudo-tolerância, o pluralismo, que há muito tem buscado destruir sua herança cultural, aquilo que o formatou, e lhe possibilitou justamente a liberdade que o levou ao auto-questionamento. Alguns benefícios acabam se tornando mortais se não corretamente administrados.
Nesta linha de pensamento, neste desejo da transformação social, de uma espécie de revolução final rumo ao "mundo melhor", é inevitável que a disposição humana se entregue a quem arrogue para si a vontade, os meios, os contatos e o poder para fazê-lo. Dentro do vácuo pós-moderno, o ser humano continua desejando alguém para levá-lo à "terra prometida", mas o que seria melhor do que fazer parte deste projeto, e, quem sabe, provar o "leite e o mel" que nesta terra jorrariam?
Partindo daí, muitos, na história humana, se aproveitaram para impor uma agenda de devastação e morte, com as escusas de estar abrindo o caminho para o "mundo melhor". Mas a visão dos terrores engendrados por impérios, ditaduras, déspotas, e principalmente no último século pelos regimes irmãos nazismo e comunismo, deixou patente na humanidade que há um custo nisso, e que a estrada não tem fim, muito menos o fim glorioso que promete. Ainda assim, o ser humano continua disposto a entregar-se a tais "profetas do amanhã", e o que é pior, acreditando estar já vacinado ante as atrocidades morais já citadas, justamente resultado de serem tão próximas a nós. Se engana, pensando que uma coisa ruim não pode e reinventar e se tornar algo pior, justamente aparentando estar destruída, como é o caso do comunismo, tão declaradamente acabado, e mais vivo que nunca entre nós, iludidos e ingênuos ocidentais.
A respeito de como a degradação moral e religiosa do ocidente tem sido realizada (e não acontecido fortuitamente, como alguns pensam), há sites, livros e artigos o suficiente para um bom entendimento sobre o assunto.

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