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Comodidade e comodismo

21.6.14
É ótimo dispormos de facilidades em nossa vida. Desde um controle remoto que nos permita passar por toda a programação televisiva do momento, ao forno microondas, que deixa a água rapidamente quente para o nosso chá, passando pelos smartphones e tablets, que nos permitem navegar na internet, acessar redes sociais, bater papo, sem sair do sofá, ou em qualquer lugar. Tudo isso é ótimo, e como ferrenho defensor do livre mercado, que permite o desenvolvimento e a disseminação de novas tecnologias em abundância, penso que é ótimo mesmo termos tantas tecnologias que nos permitam poupar tempo, que nos permitam conversar com pessoas que, muitas vezes, dificilmente teríamos oportunidade de encontrar.
Tudo isto ótimo. Até certo ponto.
Apesar de todas as vantagens de que dispomos, constantemente estas comodidades tornam-se para nós motivos, mesmo inconscientes, silenciosos, para o comodismo. Talvez estejamos aceitando o comodismo como a forma normal de vivência. Conforme as coisas vão ficando mais fáceis, tendemos a acomodar nossa existência ao desejo da continuidade da facilidade, mas em todas as suas áreas.
Vou fazer uma comparação meio esdrúxula, mas que te fará entender melhor.
Gosto muito de futebol, muito mesmo. Quem acompanha sempre a vários jogos sabe que quando um time percebe que o jogo é fácil, que o adversário não apresentará muitos riscos, geralmente joga com certa displicência, sem aquele foco constante que seria exigido numa partida mais parelha, contra um adversário mais difícil. Na maioria das vezes, o time mais forte acaba vencendo mesmo, quiçá goleando. Mas em certos casos, as famosas "zebras", o time mais fraco acaba aprontando, mesmo vencendo. Tudo por causa do comodismo do time mais forte, pensando que poderia fazer o resultado a qualquer momento, coisa que não aconteceu.
A nossa vida apresenta situações semelhantes. Quando estamos rodeados de facilidades tendemos a acomodar nossa existência a esta mesma facilidade. Pense nos desafios de homens e mulheres de tempos antigos, que não dispunham de facilidades como temos hoje, mas que chegavam a desbravar regiões inóspitas, enfrentar exércitos enormes, criar as facilidades, as tecnologias; ou então, para ficarmos com os exemplos bíblicos, saíam de lugares cômodos, como o seio familiar, buscando a promessa Divina, como fez Abrão; ou então rodavam meio mundo pregando o evangelho, não pensando sobre o amanhã, a não ser na continuação da pregação, como os primeiros evangelistas, ou Paulo, sem a disponibilidade de meios de transporte rápido como possuímos hoje.
Não que hoje não existam homens e mulheres dispostos, valentes, corajosos. Existem, muitos. Mas a tendência de uma sociedade que vai se acostumando com a comodidade e a acomodação. E não apenas a acomodação "corporal", digamos, mas também a acomodação moral.
Quase tudo que facilitou a vida acabou nos tornando um tanto indolentes. Vamos nos acostumando a ter tudo de maneira mais fácil, e isto vai se tornando intrínseco em nós. E se tudo pode ser mais fácil na vida material, na espiritual caímos nesta armadilha, que já está pré-armada, digamos assim, pela própria natureza corrompida que possuímos.
A idolatria sempre foi o meio fácil, cômodo, de o homem aplacar a divindade. Crie um deus cujas características assemelham-se ao ser humano e pronto: ele também se acomodará aos nossos sacrifícios. Ou mesmo nosso ego será aplacado pela criação de um sistema religioso que aplaque não a um deus hipotético, mas ao temor natural da morte que existe no ser humano em decorrência do pecado.
Para o cristão, são tempos difíceis. A mornidão nada mais é que o comodismo traduzido em aceitação passiva de uma crença largamente digerida, cujo efeito vai se tornando inócuo com o passar do tempo, pela falta da continuidade do temor, pelo esquecimento do efeito da graça salvadora de Cristo. A religião fria e constante se torna a regra, e o desejo da santificação e do constante conhecimento e relacionamento com Deus vai cessando aos poucos.
Me estendi um pouco aqui, e nem mesmo desenvolvi o texto como poderia. Foi apenas uma ideia, uma ideia solta, como diz o nome do blog, que me ocorre sempre que percebo a passividade com que temos encarado as coisas ultimamente. Nossa mornidão precisa ser curada, para que o comodismo não se torne uma corrente constante na nossa vida.

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