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Aos poucos

22.5.14
Aos poucos a rotina se estabelece, e você acredita que está no passo certo de sua fé. Tudo passa a ser normal: as pessoas, as palavras, o cumprimento, a pregação, a oração, as conversas. Tudo tem o seu tempo pré-estipulado, tudo está coordenado, a sua atenção está em todos os detalhes, e não apenas no que importa naquele momento. As paredes do templo vão se tornando mais familiares a cada dia, mais aconchegantes, mais convidativas à permanência.
Aos poucos, o cuidado na busca pela santidade vai sendo substituído por aquela confiança quase imperceptível, aquela que você sabe possuir mas não admite, acreditando que a sua confiança ainda está sendo colocada em Deus.
Aos poucos, você começa a aceitar aquilo que repudiava; começa a andar nos caminhos que evitava; coloca-se perigosamente, brincando, na beirada de altos e perigosos precipícios chamados tentações.
Aos poucos, o que era fé no sobrenatural, aquele arrepio, aquela reverência, torna-se simplesmente um rito diário, semanal ou, quiçá, mensal, no pior dos casos. O culto mais importante de todos, a Santa Ceia, passa a ser praticamente o único. A comunhão, antes tão alimentada, tão procurada, passa a ser um fardo, e o desejo de se evitar os que te incomodam, seja lá pelo que for, toma conta dos seus relacionamentos, da forma como você trata as pessoas.
Aos poucos, Jonas vai deixando de ter sido engolido e vomitado por um grande peixe; os três jovens vão saindo da fornalha, afinal, não devem nunca ter entrado lá mesmo; os israelitas nunca passaram mar algum, afinal, mar algum pode ser aberto; Eva e Adão começam a sentir pêlos crescendo em si, e um incontrolável instinto animal, um desejo de não mais andarem eretos...vão se assemelhando a macacos; Abrão torna-se simplesmente alguém que ouvia vozes, talvez por ter perturbações na mente....
Aos poucos, Jesus vai deixando de ser o Cristo, para se tornar o Jesus "Histórico"; não terá ele mais alimentado multidões na base do pão e dos peixinhos; suas curas tornam-se belas figuras de uma fé e um poder inalcançáveis, pinturas embelezadoras criadas por seguidores de um homem comum...
Aos poucos, a igreja vai se tornando tão comum, a fé tão normal, o convívio um costume, a aceitação da palavra de Deus tão passiva, tão pouco ou nada meditativa.
Aos poucos, não se encontram mais frutos na árvore, não se encontra mais seiva nos galhos, não se encontram mais folhas, o verde se esvai, a árvore morre, o solo seca, e os céus não mais derramam chuva.
Aos poucos, você vai morrendo de novo. Aos poucos, Deus se torna apenas a crença que te faz feliz, que te acalma, que te "encaixa" num mundo de muitas vozes distintas. Aos poucos, a cadeira sob você é a única coisa que você é capaz de sentir na igreja.
Aos poucos...

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